O que eu mais gosto na música, em especial na chamada clássica, é a pureza da forma, a estrutura profunda e a franqueza contida na linguagem. Sim, pois quando o compositor compõe, há sentimento lá, um sentimento real, uma sensação, algo que poucas vezes as palavras puderam mostrar de forma tão crua.
Algumas vezes nos encontramos em conversas francas, verdadeiras e via de regra, ela nos emocionam. Pois mostram um lado de alguém, alguma coisa que não estamos acostumados a ver, a verdadeira pessoa. Não aquela que brinca no trabalho, que faz piada e que está sempre alegre. Mas aquela com anseios frustrações, sonhos, desejos. Alguém além daquela máquina de trabalhar/estudar. Alguém com sentimentos.
E isso não impressiona apenas o receptor da mensagem, mas o próprio emissor. Afinal, nós nos desconhecemos. Quem num dia normal pode dizer suas frustrações falar sobre seus verdadeiros sonhos de forma aberta e natural?
A relação com a música é simples: Ela é essa conversa. Quando eu ouço uma peça do dvorák, tchaikovsky, estou tendo uma conversa dessas. Mas com quem? Não é com os próprios compositores, afinal muitas das peças são escritas sob encomenda, como um ballet do tchaikovsky, que já devia inclusive ter roteiro. Na verdade a conversa é consigo mesmo. A verdadeira habilidade dos grandes compositores é colocar um sentimento verdadeiro numa peça. Seja esse sentimento real, no sentido do compositor tê-lo sentido mesmo, ou feito sob encomenda. Não importam as origens, o sentimento que está ali é verdadeiro. (Na verdade mesmo me custa acreditar que alguém que compõe X não estava sentindo X de verdade, mas essa discussão é mais profunda e fica para outro dia). Então, quando nós, 200 anos depois ouvimos a melodia, nos emocionamos. A música não é atual porque fala de algo atual, mas porque "fala" da humanidade, do humano.
Então voltando, ao ouvir a música, nós conversamos com nós mesmos. Pois ela diz aquilo que nós temos medo de dizer e ouvir. Ela nos diz algo sobre nós mesmos. Claro que por isso existem músicas para cada situação, mas estão lá. Tudo o que nós faz humanos está escrito em 500 anos de partituras.
O ponto deste post na verdade é bem simples, apesar de conter um texto tão confuso:
Nós somos menos humanos do que deveríamos. Raramente nós vamos de encontro ao nosso verdadeiro eu, nós o desconhecemos. E uma boa forma de fazer isso, é ouvindo a música certa.
sábado, 13 de dezembro de 2008
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