Só foi usada uma vez. Apenas por alguns instantes foi digna de uso. Não porque ela é especial, mas sim porque o mundo não merece uma camisa tão brega, out of fashion e descolada.
Tenho um amor platônico por essa camisa. Sua malha é gostosa e sua cor seria a típica cor que eu usaria como provocação (como a laranja quadriculada), tudo corrobora para o uso constante! Mas algo impede. O único uso foi num show, um show que requeria uma vestimenta digna, um show em que a vestimenta era o menos importante, um show no qual poderíamos vestir fosse o que fosse e ninguém notaria. Usei minha camisa amarela nessa oportunidade, junto com minha calça amarelo-bege de veludo (calça que amava não só platonicamente, uma tristeza que furou na bunda. Acho que vou fazer um remendo à la festa junina). Não preciso dizer que eu parecia um pote de mostarda. Mas um pote de mostarda com estilo! Também não é necessário dizer que minha companhia odiou, mas isso eu resolvi. Expliquei a importância do momento e fui prontamente atendido. Infelizmente ela não entrou de cabeça na experiência, usando uma reles vestimenta decente. Tudo bem, eu fazia as honras, mas é uma pena que eu não tinha um tênis amarelo (tá aí uma coisa que nunca terei), nem corante amarelo para cabelos (ta aí uma coisa que já tive), ia ficar perfeito! O show transcorreu de forma ótima, muitas risadas, muita diversão e muita música!
O caminho para o palco foi recheado de ansiedade, tensão e emoção, tudo por ver uma das mulheres por quem sou apaixonado há mais tempo. A influência dessa mulher é inimaginável, imensurável!
Minha primeira paixão (que eu lembro com boa memória) se chamava cristina ou cristiane (ela tinha um apelido), e minha paixão se dava principalmente por seus cabelos ruivos, por sua boca grande, por seu jeito descolado, roqueiro. Ainda me lembro quando lhe mostrava os Rolling Stones, mais especificamente, Paint it Black. Ao ouvir a cítara no início, ela questionou meus 'rocks', e eu respondi com apenas uma palavra: 'aguarde'. Foi sucesso imediato. Mas porque ela? Do grupo de amigos, ela era sem dúvidas, a menos cotada. As anas, joanas e marias da turma eram consideradas infinitamente mais interessantes, bonitas e atraentes. Ok, eu sempre tive um fraco pelas 'estranhas' e 'B's, mas isso não vem ao caso. Na verdade era a semelhança física / psicológica com a autora do show em que usei minha camisa amarela mais de uma década depois. Essa mulher já fez eu me apaixonar. E não por ela. Outras influências, mais genéricas podem ser vistas até os dias atuais: A irremediável paixão por ruivas e por cabelos curtos. Loiras de cabelos longos e lisos, tidas como angelicais e lindas, nunca me atraíram. Elas eram o mainstream, as ruivas que me interessavam. E nem precisavam ser ruivas de verdade. Mas claro que isso foi antes da moda e banalização dos falsos cabelos cor de vinho (Mas não nego que ainda funciona. Ontem mesmo, no trem, vi uma garota com cabelos cor de vinho. Foi paixonite instantânea. Como a garota do teatro).
Durante o show, sentamos lado a lado com um casal que tinha idade para nos criarem como filhos. O que não era coincidência, dado que a maioria do público tinha idade para ser meu pai. Mas isso já é costume. Não lembro de um show que eu paguei para entrar (já fui em cada coisa sem saber...) e que não era do grupo dos mais novos. Apesar da diferença de idade significativa entre eu e a personagem principal da noite, nada me impediu de gritar coisas como 'Gostosa!', 'Te amo!' e afins. Nem mesmo a presença da minha namorada, que nada podia fazer. Paixão é foda, não há como lutar contra, já dizia o Sinatra (com outras palavras). Se ela pedisse que eu fosse com ela depois do show, eu iria. Claro que depois voltaria para minha namorada, mas ela teria que entender, aquele era um momento único, a realização de um sonho. Existem casos de amor quase patológicos, em que a pessoa está tão acima da realidade que o ato nem pode ser considerado traição, negar-se esse prazer seria um crime contra si próprio. Envolve outro tipo de amor, não o amor usual. Por isso nem pode ser comparado a uma traição. Mas claro, isso nunca aconteceu. Estamos passeando pelo famoso mundo das idéias. Mas mesmo que isso não tenha ocorrido (e que nem quero que ocorra, o amor se dá pelo desconhecimento da personagem e a consequente idealização), algo aconteceu aquela noite. Algo maravilhoso. O máximo que poderia ter ocorrido sem estragar a relação platônica.
No fim do show, as pessoas pediam bis, outras músicas, uma continuação. Eu decidi entrar na onda. Lá do fundo, com a voz já rouca (não é preciso muito), gritei no máximo que pude:
"Orra meu!!!!!!"
Se ela ouviu, eu não sei. Se estava ensaiado, eu não sei. Ok, a lógica e o bom senso atentam contra a primeira e apoiam a segunda, mas o que sei é que os acordes começaram a ser tocados uns 10 segundos após meu grito. O êxtase foi enorme, indescritível. Não pude cantar, nem acompanhar. Reclinei na cadeira e senti o momento, aproveitei.
É essa foi a única vez, nos últimos 6 anos que a camisa foi digna de ser vestida. Em homenagem a Rita, ela será novamente usada no próxima vez que sair.
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